EM DIREÇÃO A UMA AGRICULTURA MAIS SUSTENTÁVEL

 

José Eli da Veiga

Ricardo Abramovay

Eduardo Ehlers

 

in: Patrimônio ambiental brasileiro, organizado por Wagner Ribeiro, São Paulo: Edusp/Imesp, pp. 305-333

 

 

José Eli da Veiga, professor titular de Economia e Ciência Ambiental da USP, é autor de Metamorfoses da Política Agrícola dos Estados Unidos (Fapesp/Annablume,1994), e escreve quinzenalmente para o caderno de economia do jornal O Estado de São Paulo.

 

Ricardo Abramovay, Professor livre-docente do Departamento de Economia da FEA e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP. Pesquisador visitante da Fondation Nationale des Sciences Politiques e da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris). Autor de Paradigmas do Capitalismo Agrário em Questão (Hucitec/Edunicamp/Anpocs).

 

Eduardo Ehlers, mestre em Ciência Ambiental pela USP, autor de Agricultura Sustentável: origens e perspectivas de um novo paradigma.

 

 


INTRODUÇÃO

 

            O agribusiness brasileiro está emergindo de um sistema agrícola bem recente e muito heterogêneo.

            Bem recente porque até a metade do século XIX o Brasil não chegou a ter vida econômica própria. Na fase colonial, as plantações aqui existentes eram meros apêndices do mercado português, além de intermitentes e quase extrativistas. Essa situação começou a se alterar com a vinda da Família Real, em 1808 e, mais ainda, com a independência política em 1822. Mesmo assim, toda a primeira metade do século XIX só pode ser considerada como um período de transição, no qual foi se delineando o papel estratégico que iria desempenhar a cafeicultura.

            De fato, foi o surto cafeeiro de meados do século XIX que, ao acabar com a estagnação das anteriores atividades primário-exportadoras: evitou a desagregação política e territorial prevalecente no resto da América Latina; ligou o país a novos parceiros comerciais e financeiros; deslocou o eixo da economia do Nordeste para o Sudeste; e preparou o terreno para a posterior industrialização.

            Por outro lado, também foi a expansão do café que revigorou a escravidão, num momento em que ela estava sendo abolida no mundo todo. E isso desencorajou a entrada maciça de imigrantes, dificultando tanto a oferta de mão-de-obra mais qualificada, quanto o surgimento de um verdadeiro mercado consumidor.

            Foi somente com a Grande Depressão nos países capitalistas centrais (1870-1895) que se reuniram as condições necessárias a uma diversificação produtiva capaz de promover a decolagem da economia nacional. Não seria exagerado dizer, portanto, que o sistema agrícola brasileiro é um fenômeno que não chega a ter um século de existência (SZMRECSÁNYI,1990).

            Além de bem recente, o sistema agrícola brasileiro é muito heterogêneo porque o progressivo estreitamento das relações entre agropecuária e as demais atividades econômicas, em vez de produzir alguma uniformidade sistêmica, reforçou a diferenciação regional herdada do período pré-industrial. São enormes os contrastes entre a modernização do Centro Sul, o processo de expansão da fronteira nas regiões Centro-Oeste e Norte, e as tradicionais dificuldades do Nordeste. Exemplo desses contrastes é a concentração, até meados da década de 1960, nos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul, de, respectivamente, 44% e 25% de todos os tratores existentes.

            No final dos anos 1950, após um período de intenso crescimento industrial e de urbanização, marcado por desequilíbrios e pressões inflacionárias, a economia entra em crise, com taxa de crescimento industrial acusando acentuado declínio. Um grande debate teve lugar, na época, e a estrutura agrária concentrada foi vista como a causa da crise e um obstáculo à continuidade do processo de crescimento econômico. Ao mesmo tempo, sob o impacto da revolução cubana, o governo Kennedy, por meio da Aliança para o Progresso, passou a ver na reforma agrária um instrumento capaz de arrefecer o potencial esquerdizante na América Latina. Surge, assim, em 1964, a primeira lei de reforma agrária, intitulada "Estatuto da Terra". No entanto, esse diploma permaneceu letra morta durante os dois decênios de ditadura militar.

            Nesse período o que se viu, ao contrário, foi uma maior concentração da estrutura agrária. Após o golpe militar de 1964, a agricultura entrou em processo radical de transformação, favorecido pelas seguintes circunstâncias: fase ascendente do ciclo econômico conhecida por "milagre"; enorme ampliação do crédito rural subsidiado; internacionalização do pacote tecnológico da “Revolução Verde”; e melhoria dos preços internacionais para produtos agrícolas. Mas a distribuição social, setorial e espacial desses incentivos foi muito desigual. Tanto a mudança na escala de produção, como a tendência especulativa desencadeada pela modernização, acentuaram ainda mais a concentração da propriedade da terra.

            A mudança na qualidade do processo de urbanização, caracterizada pelo fortíssimo êxodo rural de quase 30 milhões de pessoas em apenas vinte anos (1960-1980), bem como pelo crescente assalariamento da força de trabalho agrícola, que deixou de residir no campo, foi apenas uma das graves conseqüências do processo de transformação da agricultura.

            Outra grave conseqüência foi o impacto ecológico predatório que se irradiou a todos os grandes ecossistemas do país. A tendência à homogeneização das práticas produtivas e do meio natural, induzida pela “Revolução Verde”, por meio da utilização intensiva da motomecanização, fertilizantes inorgânicos, agrotóxicos, equipamentos pesados de irrigação, do divórcio entre agricultura e pecuária, e da expansão das monoculturas, traduziu-se em brutais índices de erosão e degradação dos solos agrícolas, no comprometimento da qualidade e da quantidade dos recursos hídricos, na contaminação dos alimentos., na devastação das florestas e campos nativos e no empobrecimento da diversidade genética de plantas e de animais.

            A natureza e a amplitude desses impactos não derivam apenas da incorporação indiscriminada de uma base tecnológica desenvolvida para regiões temperadas e eventualmente inadaptada aos ecossistemas tropicais. A este fator de ordem técnica se somou a lógica "mineradora", a corrida à lucratividade imediata e o caráter especulativo predominante na conformação dos agroecossistemas brasileiros.

            Em 1985, com a Nova República, a questão agrária volta à cena do debate político, com nova tentativa de aplicar o “Estatuto da Terra”. Mais uma vez, esta foi rapidamente rechaçada por forte reação dos grandes proprietários, que, apoiados pelo conjunto do empresariado, neutralizaram as populações urbanas e isolaram os trabalhadores rurais. Logo depois, essa opção antireforma foi confirmada pela Constituinte de 1988 (ABRAMOVAY, 1986).

            Nada disso impediu a continuidade do processo de crescimento econômico e da modernização parcial (e "conservadora") da agricultura. O que é preciso ter presente é que, por mais favorável que tenha sido o desempenho da agricultura brasileira nos últimos trinta anos, ele não favoreceu o amadurecimento socioeconômico do país. Ao contrário, o rápido crescimento e ganhos de produtividade de um grupo de produtos "modernos" — que são parte de cadeias de verticalização e recebem intenso apoio governamental — se deu ao mesmo tempo em que ocorria: uma virtual estagnação dos "tradicionais", isto é, os que ficaram à margem desses processos (MUELLER,1992); um aumento da pressão da oferta de mão-de-obra em um mercado urbano-industrial heterogêneo e pouco estruturado; um efeito regressivo na distribuição da renda, alijando do mercado grande parte da população brasileira; e, finalmente, um aceleredo processo de impacto ecológico predatório nos ecossistemas do país.

            A vulnerabilidade da agropecuária brasileira fica mais evidente quando são examinados mais em detalhe os principais conjuntos de agroecossistemas do país, bem como os problemas ambientais decorrentes da forma como se deu sua ocupação e exploração. É o que pretendemos fazer neste artigo, sem deixar de apontar a busca de soluções e os desafios que permeiam o atual debate sobre a sustentabilidade da agricultura brasileira e seu papel fundamental na superação dos problemas que vive o país.

 

A Mata Atlântica e os Campos e Florestas Meridionais

 

            As dinâmicas de exploração agropecuária nos ecossistemas da região da Mata Atlântica e das Florestas e Campos Meridionais provocaram drásticas alterações nas suas características originais.

            No Sudeste, o uso da terra se intensificou a partir do final do século XVIII com o “segundo ciclo da cana-de-açúcar”, período em que os canaviais se estenderam do litoral paulista às várzeas do Tietê e ao vale do Paraíba. Quase à mesma época, os cafezais se espalhavam do Rio de Janeiro para os estados vizinhos, dando início ao “ciclo do café”.

            Se, por um lado, no início do século XIX a cafeicultura significou uma salvação para a aristocracia colonial, por outro, dizimou grande parte da Floresta Atlântica do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Nessa época, de acordo com relatos de um viajante, os incêndios florestais eram tão intensos que, às vezes, durante dias, ou mesmo meses, mal se podia ver o sol (DEAN, 1997).

            No Sul é interessante notar que a exploração agrícola no início do Século XIX respeitou uma divisão natural, que era, ao mesmo tempo, a expressão espacial de categorias sociais claramente distintas. As regiões dos Campos foram tomadas fundamentalmente pela pecuária extensiva com base em grandes áreas e pouca mão-de-obra. Essas ocupações deram origem às unidades produtivas de base patronal. Já as áreas florestais foram ocupadas por propriedades menores geridas por famílias de origem européia que, a partir de 1824, chegaram ao Rio Grande do Sul, ou pela população cabocla que contribuiu para o povoamento do Brasil meridional.

            Como em outras partes do Brasil, a floresta representou um trunfo na formação das unidades produtivas das regiões Sul e Sudeste. Por meio da derrubada e da queima, convertia-se a mata em elemento decisivo de fertilidade natural das lavouras. O plantio sobre as cinzas da floresta recém queimada dispensava o trabalho de aração do solo, de capina e a utilização de fertilizantes químicos ou orgânicos.

            Os rendimentos do solo nessas circunstâncias eram muito altos durante dois ou três anos, ao final dos quais deixava-se em pousio a área recém queimada. Sobre essas áreas crescia uma vegetação de aspecto florestal (capoeira) que iria preencher num futuro mais ou menos distante a mesma função da mata original: sobre suas cinzas emergiriam lavouras durante mais dois ou três anos.

            Mas, o aumento da pressão populacional e da demanda de mercado acelerou o ritmo das rotações de terras. Aos pousios longos, de mais de dez anos, sucediam-se períodos inferiores de descanso dos quais apenas uma vegetação arbustiva nascia. Tornavam-se cada vez mais nítidos - para os próprios agricultores - os limites destes sistemas produtivos onde a recuperação das energias que as culturas tomam do solo dependia, fundamentalmente, da rotação de terras.

            A partir do final da década de 1960, o esgotamento das áreas de lavouras temporárias foi superado pela adoção de métodos químicos de fertilização do solo e, posteriormente, por um conjunto homogêneo de práticas tecnológicas que compunham o chamado “pacote tecnológico” da “Revolução Verde”.

            A substituição das bases técnicas da agropecuária permitiu a implantação, em larga escala, dos sistemas monoculturais, dando início a um período de transformações radicais nas regiões Sul e Sudeste. O processo de modernização foi favorecido pelo crédito agrícola subsidiado e por vultosos investimentos públicos nos campos da pesquisa e do ensino agronômico. Colaboraram, ainda, a melhoria dos preços agrícolas no mercado internacional e a fase ascendente da economia brasileira conhecida por “milagre”.

            Nos primeiros anos, o padrão moderno propiciou surpreendentes aumentos de produção em quase todas as culturas. Entretanto, a euforia das grandes safras logo foi abalada pelos problemas socioambientais que, até hoje, caracterizam a agricultura praticada nesses ecossistemas.

            Outra característica marcante deste final de século XX é o avanço do agronegócio (agribusiness) em praticamente todo o complexo regional Sul-Sudeste. A soja é um dos exemplos mais emblemáticos desse processo: não só pelas mudanças que trouxe na paisagem agrícola da região Sul (substituindo o café no norte do Paraná, produtos básicos como o feijão e o arroz e as pastagens naturais em todo o Sul), mas também por sua fortíssima dependência de insumos químicos, mecânicos e genéticos de origem industrial, bem como pelo destino igualmente industrial de boa parte da produção.

            No emergente agronegócio brasileiro, outro setor que se desenvolveu significativamente foi o sucroalcoleiro, particularmente com os subsídios do Próalcool implantado em 1980. Depois de consolidar-se na região Sudeste, expandiu-se ao norte do Paraná, ao Mato Grosso do Sul e a vários estados do Nordeste. De acordo com a Associação da Indústria do Açúcar e do Álcool, em 1996 o setor gerou cerca de um milhão de postos de trabalho (SHIROTA e ROCHA, 1998). No estado de São Paulo - responsável por metade da produção nacional - um em cada três hectares de lavoura são ocupados pela cana-de-açúcar.

            As mudanças tecnológicas iniciadas nos anos 1960 foram determinantes para a expansão das lavouras que hoje predominam nos agroecossistemas da Mata Atlântica e das Florestas e Campos Meridionais. Nos três estados do Sul, além da soja, destacam-se os cultivos de arroz, de trigo, de milho, de fumo e de espécies frutícolas. No Sudeste, além da cana-de-açúcar, predominam as lavouras de café e de laranja. Nas duas regiões, a produção de hortaliças vem crescendo nas proximidades dos principais centros urbanos.

            Mesmo com o avanço dessas lavouras, a pecuária de corte e de leite continua ocupando as maiores extensões territoriais nos agroecossistemas das duas regiões. No Sudeste, dos 841 mil estabelecimentos rurais conhecidos em 1995/6, 541 mil dedicavam-se a pecuária de corte ou de leite e as pastagens, naturais ou plantadas, ocupavam 37,7 milhões de hectares dos 73,2 milhões de hectares pertencentes aos estabelecimentos agrícolas da região.

            Na última década, o que mais chamou a atenção na produção animal do Sul e do Sudeste foi o crescimento acelerado do setor avícola. Entre 1991 e 1997 a adoção de tecnologias modernas possibilitou considerável redução dos custos de produção e ampliou a produção nacional em aproximadamente 70% (FNP, 1998).

            Em suma, o caminho percorrido pela agropecuária do Sul e do Sudeste para superar os impasses resultantes do esgotamento dos solos pelos sistemas agrícolas praticados majoritariamente até o final da década 1960-69, passou pela adoção em larga escala das práticas tecnológicas da “Revolução Verde” até a inserção no agronegócio. Os “gigantes” desse setor - a cana-de-açúcar, a soja, a laranja, o café, o milho e a produção de aves, bovinos e suínos - figuram também entre os maiores “consumidores” de recursos naturais dos ecossistemas das duas regiões e, em certos casos, promovem estragos ambientais de proporções igualmente grandiosas.

            Há diversas evidências de que a Floresta Tropical Atlântica, - um dos mais importantes ecossistemas das regiões Sul e Sudeste, particularmente no tocante à diversidade genética - corre riscos de extinção.

            A dilapidação deste patrimônio genético tem implicações incalculáveis para a agricultura, para a silvicultura, para a pesca, para o turismo, dentre outras atividades econômicas. É muito provável que essa erosão de biodiversidade já esteja comprometendo a identificação de espécies de plantas potencialmente cultiváveis, seja para fins comestíveis, medicinais, industriais etc. Outros problemas mais imediatos são a diminuição da estabilidade dos agroecossistemas - devido a desequilíbrios provocados pela eliminação de inimigos naturais de pragas - e a diminuição dos recursos hídricos.

            Frente a estes problemas, a consciência da necessidade de estimular a diversificação dos sistemas produtivos é unânime entre os que se preocupam com a sustentabilidade da agricultura. Provavelmente, um padrão mais sustentável substituirá em larga escala os atuais sistemas simplificados ou monoculturais por sistemas bem mais diversificados e que permitam integrar a produção animal e vegetal. É claro que esta possibilidade não deve ser apontada como uma “receita” generalizada. Existem diferentes meios de se promover a diversificação de um agroecossistema, e o desafio, portanto, é conhecer não apenas as características dos agroecossistemas, como também as formas mais apropriadas de diversificá-los.

            No caso específico do setor produtor de grãos, um dos caminhos para a obtenção de mais sustentabilidade seria a diversificação por meio das rotações de culturas que favoreçam a integração da produção animal e vegetal. As rotações são um excelente meio de se manter a estabilidade de um agroecossistema, pois reduzem o risco de infestação de pragas e de certas doenças, e aproveitam de forma mais eficiente os recursos disponíveis - água, nutrientes, luz, dentre outros. Aliadas ao retorno de matéria orgânica ao solo, as rotações contribuem para manter sua estrutura física, ajudam a reduzir a erosão e, consequentemente, melhoram a fertilidade dos solos. A combinação desses fatores leva, invariavelmente, a aumentos de produtividade.

            Outra forma de diversificação dos sistemas produtivos é a agrosilvicultura ou “agroflorestação”, que consiste em um sistema de manejo florestal que concilia a produção agrícola e a manutenção das espécies nativas. Esses sistemas vêm sendo desenvolvidos com sucesso na Zona da Mata de Minas Gerais e em áreas de Floresta Atlântica em Pernambuco, no Espírito Santo e na Bahia. Mas, apesar das vantagens, a possibilidade de disseminação em larga escala dessas experiências ainda esbarra na escassez de informações sobre sua viabilidade econômica e na maior exigência em conhecimentos ecológicos e em capacidade gerencial se comparados aos sistemas mais simplificados.

 

Cerrados

 

            Os Cerrados ocupam um quarto do território brasileiro, pouco mais de 200 milhões de hectares. Deste total, 155 milhões de hectares estão no Planalto Central e 38,8 milhões de hectares no Nordeste, dos quais a maior parte nos estados do Maranhão e do Piauí. Existem áreas de Cerrados ainda em Rondônia, Roraima, Amapá e Pará, bem como em São Paulo.

            Os Cerrados são o segundo maior bioma brasileiro (após a Amazônia) e concentram nada menos que um terço da biodiversidade nacional e 5% da flora e da fauna mundiais. Sua flora é considerada a mais rica dentre as savanas do mundo: estima-se que entre quatro a sete mil espécies habitam os Cerrados brasileiros.

            A água acumulada nos lençóis freáticos dos Cerrados do Centro-Oeste abastece nascentes que dão origem a seis das oito maiores bacias hidrográficas brasileiras, exceção apenas para as bacias do Rio Uruguai e do Atlântico Sudeste. Essa abundância hídrica é importante para a vegetação ao permitir o intercâmbio de sementes, pólen e mesmo a dispersão da fauna através das matas de galeria que acompanham córregos e rios, possibilitando que indivíduos do Cerrado se acasalem com representantes da Amazônia, da Mata Atlântica, da Caatinga, contribuindo para aumentar a variabilidade genética das espécies.

            Apesar de sua incontestável importância, é nítido o contraste entre o papel decisivo dos Cerrados na manutenção dos grandes equilíbrios biogeoquímicos planetários e o valor secundário que lhes é atribuído pela opinião pública brasileira e internacional (WWF, 1995).

            O fato de os Cerrados serem uma “floresta de cabeça para baixo”, com uma vegetação subterrânea mais rica que a aérea, ajuda a explicar a ausência de campanhas públicas voltadas a sua preservação. Os Cerrados não receberam a qualificação de patrimônio nacional dada à Amazônia, à Mata Atlântica, ao Pantanal e aos Sistemas Costeiros pela Constituição Brasileira de 1988. Assim, enquanto 12% da Amazônia tem sua área protegida na forma de unidades de conservação, nos Cerrados, este total não atinge 2%. Além disso, na Amazônia, as unidades de conservação possuem área superior a 100 mil hectares, enquanto que nos Cerrados, apenas 10% das unidades de conservação têm áreas que ultrapassam 50 mil hectares.

            De fato, até aqui, os recursos naturais deste agrossistema apareceram aos olhos das políticas públicas e de grande parte dos agentes privados responsáveis por iniciativas empresariais nestas áreas, como limites a serem superados pela adaptação do meio natural às exigências da produção agropecuária.

            Assim, dos cerca de 200 milhões de hectares de cerrados existentes, aproximadamente um quarto já estão incorporados a seu aparato produtivo e contribuem com parcela muito significativa na oferta de grãos e carne bovina. Os Cerrados respondem hoje por 30% das principais lavouras, além de abrigar 40% do rebanho bovino e 20% do rebanho suíno nacional. Pegando a soja como exemplo, sua produção, no Brasil Central, representava em 1976/78, apenas 6% do total nacional, passando, em meados dos anos 1990, para mais de 40%.

            Mas a continuidade da agropecuária nos Cerrados encontra-se seriamente ameaçada pelo esgotamento dos recursos naturais em que se apoiam as práticas até aqui mais difundidas. Se é verdade que nem sempre isso se traduz em queda nos rendimentos das culturas, o fato é que a dependência crescente de insumos químicos e de irrigação constitui uma ameaça não só ao ecossistema como um todo, mas à própria continuidade das explorações agropecuárias. Voltar-se para a ocupação de novas áreas sem antes ter racionalizado o uso das atuais significa estimular uma prática que mais se aproxima da mineração do que da agricultura.

            Existem hoje duas visões estratégicas em disputa na sociedade brasileira sobre os rumos que deve tomar o crescimento agrícola nos Cerrados.

            Uma delas vê a região, antes de tudo, como uma fronteira agrícola a ser desbravada e cuja vocação central é a produção de commodities (grãos, cana-de-açúcar, carnes, algodão, entre outros). Esta visão é fortalecida por alguns fatores dos quais destacamos os principais.

            Primeiramente, a existência de mais de 80 milhões de hectares de terras aráveis ainda não ocupadas, fazendo com que o Brasil possua a última grande fronteira agrícola do mundo.

            Em segundo lugar, a crença na valorização dessa vocação, baseada nas políticas governamentais de transporte que têm nos corredores intermodais (hidrovias) uma de suas pedras de toque.

            Em terceiro lugar, destaca-se o peso das empresas ligadas à produção de grãos no Centro-Oeste do país (15% do parque brasileiro de esmagamento de soja) e o fato, mais recente, de que o uso dos grãos dos Cerrados poderá ser feito no local, por meio das integradoras de produção de suínos, que encontram nestas regiões normas ambientais mais tolerantes a unidades produtivas cujo tamanho não é admitido pelas legislações do Sul do País (NOVAES e NOVAES, 1998).

            Finalmente, a visão dos Cerrados como fronteira agrícola baseia-se na depreciação cultural, política e econômica, não só dos recursos, mas também das capacidades locais que poderiam voltar-se à sua valorização. Neste sentido, na sua esmagadora maioria, os poderes públicos municipais tendem a ignorar, ou a encarar com ceticismo, este aproveitamento econômico de recursos e conhecimentos locais, e a oferecer todos os estímulos a iniciativas que representem a perspectiva mais visível de geração de renda representada pela eliminação da vegetação nativa e o estabelecimento de unidades agropecuárias especializadas.

            Na segunda visão estratégica, a prosperidade das regiões de Cerrados tem na preservação ambiental o seu maior trunfo, vendo-a como vantagem, e não como ônus, para o desenvolvimento. A base desta perspectiva possui três componentes centrais.

            O primeiro é a recuperação das áreas de pastagem degradadas por meio da adoção do plantio direto e, sobretudo, do estímulo à integração lavoura-pecuária, baseando assim o aumento da produção não na ocupação e devastação de novas áreas e sim na recuperação de um patrimônio produtivo já instalado.

            O segundo componente desta perspectiva consiste no aproveitamento econômico dos recursos locais. Neste sentido, não são poucos os pesquisadores que procuram conhecer e detectar o potencial de aproveitamento destes recursos. É claro que trata-se de um desafio bem mais complexo do que a ligação ao mercado por meio de produtos consagrados como a soja, o milho, os suínos ou a cana-de-açúcar. O importante é que esta fantástica diversidade pode gerar a criação de mercados capazes de representar uma agregação de valor – em virtude da especificidade do produto – muito maior do que na produção de commodities.

            Mas isso supõe que se desenvolva o terceiro componente dessa perspectiva, ou seja, a aquisição, por parte das populações locais, das prerrogativas necessárias para que possam transformar o uso sustentável do meio ambiente em seu principal trunfo para participar do processo de desenvolvimento. Isto depende de sua valorização pela sociedade, como depositárias da preservação da biodiversidade, e de sua capacitação e estímulo para que tomem iniciativas que associem geração de renda, valorização de produtos regionais e preservação ambiental.

            Essa discussão está na ordem do dia pois é certo que o provável aumento da demanda alimentar internacional nos próximos anos tenderá a aumentar a produção especilaizada de grãos e carnes na região dos Cerrados. Mas, exatamente pela região se constituir num recurso estratégico, é imprescindível planejar sua ocupação para que a sociedade brasileira possa dela retirar o melhor proveito. No momento em que a demanda alimentar mundial exigir a ocupação de novas fronteiras agrícolas e quando as terras de Cerrado hoje já ocupadas forem melhor utilizadas, aí sim poderá ser adequada a expansão desta que é a mais importante fronteira agrícola do mundo.

 

CAATINGA

 

            Mais de dois terços dos pobres rurais brasileiros estão no Nordeste, sendo impossível imaginar qualquer solução para tão profunda chaga social que não dependa da atividade agropecuária, inclusive em ecossistemas de extrema fragilidade, como os que cobrem a Depressão Sertaneja, a Chapada Diamantina ou o Planalto da Borborema.

            A realidade nordestina torna quase irreal imaginar o crescimento econômico da região. No entanto, este tem sido significativo e nos últimos trinta anos deu origem a “polos”, ou “manchas” de dinamismo econômico, que mantém ligações ainda pouco estudadas com a agropecuária mais tradicional da região.

            Foi assim superado o débil crescimento econômico que caracterizou durante a maior parte do século XX o ambiente econômico da região, sem que tenha sido alterada, entretanto, a sua principal marca: a extrema pobreza da maior parte dos nordestinos. É que fora das tais “manchas” de dinamismo econômico, o que predomina é a grande mancha semi-árida que abrange 70% da área do Nordeste e 63% de sua população.

            Por mais diversificados que sejam os sistemas de produção inseridos em dezenas de sistemas agrários (como mostrou o “Zoneamento Agroecológico do Nordeste”, publicado pela EMBRAPA em novembro de 1993), a principal característica agroecológica da região nordeste continua a ser o fenômeno da “seca”. Afinal, o que mais distingue o Nordeste dos demais complexos regionais brasileiros é sua vulnerabilidade climática e pluvial. Fora do “Nordeste seco”, as condicionantes das atividades agropecuárias tendem a ser semelhantes às que predominam em outros contextos do país, sejam de florestas, campos ou cerrados.

            E não há, evidentemente, uma dimensão do subdesenvolvimento da região mais diretamente relacionada ao fenômeno da seca do que a agropecuária. Assim, qualquer ação integrada que vise o aumento da produtividade agrícola deverá enfrentar o problema do gerenciamento dos recursos hídricos.

            Claro está que a escassez de água atinge não somente o Nordeste, mas várias regiões do país. No Centro-Oeste, por exemplo, a escassez é provocada pelo elevado consumo agrícola que, apenas no Estado de Goiás, chega a cerca de 3,45 bilhões de litros de água por dia - cerca de 20 vezes o consumo doméstico diário do milhão de pessoas que vivem em uma cidade como Goiânia. Trata-se de um grande risco, uma vez que não se tem conhecimento confiável dos aqüíferos da região.

            Mas é sem dúvida no domínio do Semi-árido, onde a escassez de água se manifesta de maneira mais voraz. É no Semi-árido que numerosa população luta para conviver com as dificuldades naturais, procurando adaptar seus modos de vida às imposições de um meio ambiente extremamente hostil.

            As iniciativas para enfrentar a problemática dos recursos hídricos têm se baseado essencialmente na construção de grandes reservatórios de água, muitas vezes sem considerar as condições de aproveitamento dos próprios usuários.

            Essas soluções implicam na centralização das ofertas, em geral alocadas próximas a grandes fazendas, tornando-se necessários, portanto, custosos sistemas de distribuição. A própria localização dos açudes resultou de decisões políticas orientadas por motivações que contrariavam os mais rudimentares critérios agroecológicos. Como conseqüência, sua eficiência hidrológica é estimada em apenas 1/5 do volume estocado, devido a altas taxas de perdas por evaporação, associadas à falta de uso múltiplo e planejado dos reservatórios.

            Além disso, a evaporação intensa engendra processos de salinização cíclica das águas estocadas, em grande parte devido à falta de critérios de uso e de proteção da qualidade. Esses critérios deveriam ter guiado a localização do barramento, suas características geométricas e construtivas, em especial a altura da barragem e a instalação de dispositivos de descarga de fundo que, quando operados de forma adequada, extraem os volumes de água salinizada que se acumulam nos reservatórios no fim dos períodos de estiagem, criando espaço para acumulação de água nova gerada pelo período invernoso. O mesmo esquema operacional poderia transformar água de poço salinizada em água doce, mediante bombeamento programado para o fim do período de seca (REBOUÇAS, 1997).

            O professor Aldo Rebouças (1997) tem denunciado uma preferência pelos projetos de barramento dos rios, em detrimento da utilização de águas subterrâneas, cujos projetos demandam investimentos relativamente modestos. E são justamente estes que podem ser implantados progressivamente, à medida que cresçam as demandas. Pode-se alegar que, no domínio das rochas cristalinas, as águas subterrâneas ficam restritas às zonas de fraturas e manchas aluviais, tendo, portanto, alcance apenas complementar. É verdade que a solução hídrica nesse contexto deve se basear no uso eficiente de açudes. Todavia, é importante salientar que os domínios sedimentares reservam cerca de 4.000 bilhões de metros cúbicos de água doce subterrânea, com aproximadamente 20 bilhões exploráveis por ano, ao abrigo das secas periódicas que assolam a região semi-árida.

            Outra “saída” apontada para a superação da “seca” é a duvidosa proposta de transposição de águas do Rio São Francisco: o “Plano de Desenvolvimento Sustentável da Bacia do Rio São Francisco e do Semi-Árido Nordestino”, da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf). Esse plano, que interligaria as principais bacias hidrográficas nordestinas com as águas do São Francisco, também integraria os principais açudes, alterando a atual sistemática de gerenciamento desses reservatórios, ampliando a sua capacidade de regularização de vazões e reduzindo as perdas por evaporação pelo efeito sinérgico da operação.

            Além de ser objeto de um sério conflito político entre as elites regionais, o projeto de transposição esbarra na desconfiança de cientistas, sindicalistas e ativistas agroambientais, principalmente porque não está baseado em estudos sistemáticos de avaliação de seus possíveis impactos. “Haveria prejuízos para a fauna, flora e para os já existentes projetos de irrigação da Codevasf”, conforme o relatório parcial CUT/Contag (março,1997). “Além de sérios danos ecológicos que este projeto certamente acarretará, dificilmente amenizará a problemática da falta d’água no sertão”, de acordo com o Diagnóstico Ambiental da Agricultura Brasileira (MMA, s/d, parágrafo 108).

            Paralelamente, para fazer emergir um aproveitamento mais racional de 40 milhões de hectares não-irrigáveis, a linha estratégica de pesquisa do sistema EMBRAPA tende a se concentrar na melhoria da capacidade de convivência com a seca. Para aumentar a oferta de água, a pesquisa poderá viabilizar a dessalinização de águas de poços subterrâneos, como apontado acima, com manejo de rejeitos (extração dos sais para fins industriais, criação de peixes, irrigação de forrageiras tolerantes a sais etc.). Nessa direção, a EMBRAPA já desenvolveu vários métodos de captação de água de chuva usando tração animal ou motora, além de gerar técnicas de conservação de água para consumo humano.

            Finalmente, é fundamental dar atenção a algumas ações de desenvolvimento local “não convencionais”. Duas delas merecem destaque: a utilização da cobertura vegetal dos solos como captadora das águas de chuva; e o aproveitamento dos leitos dos rios secos como reservatórios freáticos. Essas opções, presentes na proposta “Base Zero” e no trabalho da ONG “Caatinga”.[1], permitem a humidificação das bacias, promovendo o aumento da produtividade por meio da conservação da fertilidade dos solos, da retenção da umidade e da melhoria da qualidade ambiental. Trata-se de tecnologia chamada “de processo ou de conhecimento”, que exigem menos recursos financeiros e insumos de alto custo, em relação às tecnologias “de produto” - ainda dominantes nas escolas de agronomia - mas que, em contrapartida, exigem muito mais conhecimento.

            Apesar de todas as opções colocadas para a superação dos obstáculos que entravam o crescimento da agropecuária do Nordeste, os que conhecem profundamente sua hidrogeologia recusam a idéia de que o problema seja eminentemente físico-climático. Para o professor Aldo Rebouças “o que mais falta no semi-árido do Nordeste brasileiro não é água, mas determinado padrão cultural que agregue confiança e melhore a eficiência das organizações públicas e privadas envolvidas no negócio da água.” A superação do “ponto fraco” do Nordeste depende principalmente de mudança “na cultura organizacional do Estado, da Sociedade e das empresas em geral (REBOUÇAS,1997:128;151-2).

            Na transição a um padrão mais sustentável para o domínio do Semi-árido (Caatinga), os pontos de estrangulamento estariam, portanto, muito mais no âmbito do desempenho institucional em geral do que em qualquer outra variável. Ou seja, não se trata de adotar ou recusar este ou aquele mega-projeto de engenharia, mas sim de conceber o conjunto de operações que poderá melhorar a eficiência no aproveitamento das águas disponíveis, venham de onde vierem, com ou sem desvio do São Francisco.

            Trata-se, portanto, de juntar as potencialidades de todos os atores sociais que podem contribuir com esse objetivo. Mas, a difusão das opções existentes pelos órgãos oficiais de assistência técnica e cooperativas é extremamente precária. E as contribuições das ONGs neste sentido continuam a ser gotas no oceano. Somada à verdadeira indigência do ensino básico e da formação profissional, essa precariedade da extensão/assistência técnica escancara a completa ausência do ambiente educacional que poderia colocar milhões de jovens sertanejos no rumo de práticas agropecuárias minimamente adequadas à fragilidade dos ecossistemas em que vivem.

            Uma perspectiva de sustentabilidade para o Nordeste seco deverá, então, basear-se no seguinte tripé: geração e difusão de tecnologias apropriadas; capacitação de todos os membros das famílias rurais; organização dos agricultores. Somente uma ação sinérgica desses três componentes mínimos poderá alterar a situação atual, na direção da sustentabilidade da agricultura no semi-árido.

            Em tais circunstâncias, o Estado deve ser o “fator convocante” da formação de uma “meta-rede” que integre, junto com os organismos públicos envolvidos com a agricultura nordestina, prefeituras, ONGs, fundações empresariais privadas, movimentos sindicais, organizações sociais religiosas, universidades, organizações de vizinhos, outros atores da sociedade civil e as comunidades pobres organizadas. Essa meta-rede é necessária para que se aproveite melhor o que cada um dos atores tem para contribuir e, ao mesmo tempo, possam ser superadas as fraquezas que apresentem.

 

EROSÃO E CONTAMINAÇÃO: SOLUÇÕES A VISTA

 

Além da dilapidação da cobertura florestal e da escassez de recursos hídricos, outros dois graves problemas compõem o cenário da degradação ambiental nos principais agroecossistemas brasileiros: a erosão e as contaminações. O manejo inadequado dos solos leva à degradação de sua estrutura física e, consequentemente, aos processos de erosão. Os solos erodidos exigem mais fertilizantes, que nem sempre conseguem suprir adequadamente as necessidades nutricionais das plantas, tornando-as assim mais suscetíveis ao ataque de pragas e doenças. Dessa forma, os agricultores passam a aplicar doses crescentes de agrotóxicos, produtos que eliminam também os inimigos naturais das pragas, facilitando a proliferação de insetos, ácaros, fungos e bactérias, principalmente nos sistemas monoculturais. Além disso, dificilmente os agrotóxicos conseguem eliminar toda a população de pragas, permitindo que os indivíduos sobreviventes se tornem resistentes a esses produtos (EHLERS, 1999).

Mas foi justamente a constatação dos problemas provocados por este perverso ciclo que motivou, desde meados dos anos 1980, a ampliação de práticas que procuram aliar a conservação ambiental e a produção de alimentos em larga escala. Instituições oficiais de pesquisa e de extensão e um importante conjunto de organizações não governamentais buscam formas de reduzir as práticas predadoras.

 

Solos erodidos e empobrecidos

 

            A erosão dos solos decorre fundamentalmente da passagem abrupta de áreas de florestas e pastagens naturais para sistemas agrícolas de monoculturas contínuas, associadas a uma mecanização intensiva e desordenada. A erosão é seriamente agravada pela ausência de cobertura do solo no período entre os cultivos de inverno e de verão e pela falta de práticas de conservação como as curvas-de-nível e o terraceamento.

            Apesar das divergências numéricas, sabe-se que o Brasil perde, a cada ano, milhões de toneladas de terra fértil, carregadas pelas águas das chuvas, da irrigação ou, em menor escala, pelo vento. Lançada nos corpos de água, esta terra termina por assoreá-los e contaminá-los por lixiviação com fertilizantes químicos e agrotóxicos. Esses violentos processos erosivos encontram-se na base de fenômenos de desertificação que já se manifestam e se expandem em áreas relativamente extensas, particularmente no Rio Grande do Sul e no Nordeste.

            Nos Cerrados, nada menos que 80% das pastagens plantadas apresentam algum tipo de degradação. Para que se tenha idéia do prejuízo econômico aí embutido (além da depredação dos recursos naturais), convém lembrar que, considerando-se apenas a fase de engorda de bovinos, a produtividade de carne em uma pastagem degradada gira em torno de 2 arrobas/ha/ano, enquanto que numa pastagem em bom estado pode-se atingir 16 arrobas/ha/ano.

            A preocupação com a conservação dos solos é muito mais antiga do que o atual debate sobre a sustentabilidade da agricultura. Porém, no auge da chamada “modernização” (anos 1960 e 1970), agricultores, extencionistas e pesquisadores parecem não ter dado a devida importância ao tema. Foi só no final da década de 1980, diante das evidências dos problemas econômicos e ambientais provocados pela erosão, que o debate reapareceu em círculos mais amplos. No final do século XX, essa preocupação já se traduzia em resultados práticos e o percentual de áreas “terraceadas” saltou de 5% em 1970 para 70% ao final da década de 1990. 

            As práticas mais consagradas de conservação dos solos - curvas de nível e terraceamento - quando empregadas isoladamente são, muitas vezes, insuficientes para conter as perdas por erosão. Uma alternativa eficiente é o plantio direto, técnica em que a cobertura morta é mantida sobre o solo e a semeadura se dá em sulcos rasos, evitando-se, assim, o revolvimento excessivo. Nas propriedades que adotam o plantio direto, a manutenção da cobertura morta contribui para a conservação da estrutura dos solos, reduzindo a erosão em até 90% e ampliando os níveis de fertilidade, devido ao maior acúmulo de matéria orgânica e de certos nutrientes. Nos últimos cinco anos a área de plantio direto chegou a três milhões de hectares nos Cerrados. Na região Sul o plantio direto é amplamente praticado, bem mais que no Sudeste.

            O grande inconveniente desta técnica é o uso exagerado de herbicidas, tanto para a formação da camada de cobertura morta que recobre o solo como para o combate de ervas daninhas. Institutos de pesquisa e organizações não-governamentais estão buscando alternativas que permitam reduzir ou excluir o uso desses produtos. A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina testou e difundiu sistemas de plantio rotacionais com adubos verdes que formam sobre o solo uma camada espessa de cobertura morta, impedindo o desenvolvimento de plantas daninhas. Mas as pesquisas sobre o plantio direto sem herbicidas estão apenas começando.

            Outra prática importante para a conservação e melhoria dos solos é a adubação verde, isto é, a incorporação de vegetais frescos à terra, preferencialmente plantas leguminosas, por sua capacidade de fixar nitrogênio atmosférico e por apresentar sistema radicular ramificado e profundo. Desde meados dos anos 1980 proliferaram os estudos sobre os efeitos da adubação verde nas condições físicas, nutricionais e microbiológicas dos solos e na variação de produtividade. No sul do país é cada vez maior o número de agricultores que utiliza a adubação verde como cobertura dos solos durante o inverno, assim como nos canaviais e laranjais no estado de São Paulo.

            O uso de biofertilizantes, a incorporação de tortas de vegetais, a compostagem de matéria orgânica de origem animal são também métodos alternativos de fertilização dos solos. Outra possível proposta seria a utilização do lodo dos esgotos domésticos como adubo orgânico. O potencial de produção nas grandes cidades é enorme e o insumo pronto poderia custar a metade do preço pago pela torta de mamona. O problema é que não existe qualquer garantia de que esse insumo possa chegar ao produtor sem resíduos de metais pesados e outros contaminantes ambientais. A transformação do lixo urbano em fertilizantes para a agricultura enfrenta dilemas semelhantes. De um lado, a possibilidade de se reciclar um material abundante e extremamente rico em nutrientes. De outro, os riscos de contaminação por substâncias nocivas à saúde. Em pequena escala, iniciativas de transformação do lixo orgânico em adubo agrícola têm apresentado resultados satisfatórios e muito promissores.

            Finalmente, merecem destaque os avanços nas pesquisas sobre a fixação biológica de nitrogênio nas lavouras da cana-de-açúcar. São bastante conhecidos os processos de fixação de nitrogênio atmosférico por bactérias do gênero Rhizobium, presentes em nódulos que aderem aos sistemas radiculares das plantas leguminosas. Só no cultivo da soja estas bactérias são responsáveis por uma economia anual de US$ 1,6 bilhões em fertilizantes nitrogenados. Entretanto, é importante observar que esta técnica não deve ser empregada como um simples substituto dos fertilizantes químicos. A sustentabilidade da agricultura está atrelada ao manejo do agroecossistema e não, simplesmente, à substituição de algumas práticas agrícolas. Os agricultores que seguem este princípio utilizam inoculantes no preparo do solo, propiciando a reprodução natural de microrganismos importantes na fixação biológica de nitrogênio.

 

Contaminações provocadas pelas atividades agropecuárias

 

            Não é de se espantar que em torno dos agrotóxicos se desenvolvam as mais acesas polêmicas. Os gastos mundiais neste segmento passaram de US$ 20 bilhões em 1983 para US$ 34,1 bilhões em 1998. Neste período, foi na América Latina que mais cresceram as vendas; só no Brasil, entre 1964 e 1991, o consumo de agrotóxicos aumentou 276,2%, frente a um aumento de 76% da área plantada. Mas foi na última década do século que o consumo disparou: em 1990 as vendas de inseticidas, acaricidas, fungicidas e herbicidas no mercado interno eram de 1,0 bilhão de dólares; em 1997, o total das vendas dobrou e 2,18 bilhões de dólares foram comercializados.

            No Sul e no Sudeste, as lavouras que se destacam no consumo de agrotóxicos são: a soja, a cana-de-açúcar, o milho, o café, os citros, o arroz irrigado e o algodão. Nessas lavouras, o volume aplicado por hectare é relativamente baixo, mas o consumo global extremamente elevado. Há também o grupo das culturas menos expressivas em área plantada, mas que empregam doses altíssimas de agrotóxicos por hectare; é o caso do fumo, da batata , do tomate, da uva, do morango e de outras espécies frutícolas e hortícolas.

            Além dos desequilíbrios ecológicos, o uso abusivo de agrotóxicos provoca a contaminação dos alimentos, dos recursos hídricos, dos solos, dos trabalhadores rurais e das cadeias alimentares.

            Um manejo adequado do agroecossistema pode reduzir radicalmente a incidência de pragas e de doenças nas lavouras. Mas quando as medidas “curativas” se fazem necessárias, já se dispõe de um conjunto de práticas que permitem reduzir ou eliminar o uso de agrotóxicos. Dentre estas, destacam-se o controle biológico e o manejo integrado de pragas. Existem ainda alternativas menos disseminadas, como o uso de produtos “caseiros” de baixa toxicidade, o emprego de armadilhas para insetos e, na horticultura, a utilização de plantas alelopáticas.

            As técnicas de controle biológico visam favorecer o aumento das populações de inimigos naturais das pragas, aproveitando-se dos limites de tolerância das plantas. Já se dispõe de alternativas comprovadamente eficazes para o controle de pragas das principais lavouras do Sul e do Sudeste, a maioria delas desenvolvidas por centros da EMBRAPA. Um ponto polêmico é a possível dependência dos agricultores perante as empresas “produtoras” de inimigos naturais, repetindo o que já ocorre com os agrotóxicos. Para reduzir essa dependência, uma alternativa é propiciar as condições para o desenvolvimento dos inimigos naturais na próprio agroecossistema, ou seja, conservar parte da vegetação nativa e banir o uso de agrotóxicos.

            Além do estímulo ao controle biológico, cresce no Brasil o manejo integrado de pragas, ou MIP. Trata-se de uma prática que combina métodos químicos, físicos e biológicos para reduzir populações de pragas e minimizar seus danos econômicos. O que se propõe é um rígido acompanhamento da lavoura a fim de determinar o momento a partir do qual os agrotóxicos devem ser aplicados. Desta forma, diminui-se o número de produtos e de aplicações. Apesar das vantagens econômicas e ambientais, o MIP é condenado por muitos defensores de um padrão mais sustentável, pois não elimina totalmente o uso de agrotóxicos nem interfere nas causas das doenças e dos ataques de pragas.

            Outro problema extremamente grave é a contaminação por vinhoto nas regiões canavieiras. Cada litro de álcool produzido dá origem a dez ou mais litros de vinhoto. Em 1998, a produção pode ter chegado a 140 bilhões de litros. Parte desse subproduto é aproveitada como fertilizante, economizando-se cerca de 80 dólares por hectare. Todavia, se aplicado em excesso, pode provocar a salinização dos solos, devido aos elevados teores de sódio e potássio; a contaminação da água - provocando a morte de peixes e de outros animais silvestres - e o desequilíbrio da microbiota do solo. 

            Talvez o caso mais gritante de contaminação das águas em nosso país seja o verificado no Sul, por conta da suinocultura. Os problemas ambientais provocados pelo despejo nos rios de dejetos suínos não são uma decorrência direta do aumento do rebanho e sim de sua concentração e dos métodos de criação atuais. Entre 1985 e 1998, técnicos de Santa Catarina realizaram 18 mil exames bacteriológicos da água de consumo de famílias rurais, abrangendo todo o Estado e os resultados foram impressionantes: de cada 10 amostras examinadas, 8 em média apresentaram contaminação bacteriológica.

            As duas principais alternativas de controle da poluição das águas por dejetos de suínos são: investir na sofisticação dos métodos de tratamento dos dejetos, ou submeter os produtores a uma escala máxima vinculada à sua capacidade de tratamento e utilização do esterco dos animais em suas lavouras. A posição dominante entre os industriais é a de criar bioesterqueiras ou, nas concentrações maiores, lagoas de tratamento. Nesses casos, já existem meios de se reduzir o problema dos odores e de conservar a qualidade da água. A alternativa seria estimular as criações menores e reverter o processo crescente de concentração da produção de suínos. Esta alternativa é preferida pela área de pesquisa e extensão de Santa Catarina, bem como pelo movimento sindical.

            O quadro das principais contaminações ambientais provocadas pela agricultura se completa com a poluição atmosférica causada pela queima dos canaviais. Esta prática – empregada em aproximadamente 3,5 milhões de hectares - libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre, além da indesejável fuligem da palha queimada. A queima da cana-de-açúcar lança na atmosfera 64,8 milhões de toneladas de gás carbônico por ano; parte desses gases é reabsorvida pelos canaviais nos processos de fotossíntese e o restante polui a atmosfera, contribuindo para o chamado “efeito estufa”. Já o ozônio não se dispersa com facilidade, prejudicando o sistema respiratório dos seres vivos e o crescimento das plantas.

            Um passo importante para a redução desses problemas foi a regulamentação do Decreto Número 42.056 de 6 de agosto de 1997, que prevê a proibição da queima em vários estágios. Nas áreas em que a colheita é mecanizável, a proibição ocorrerá em oito anos a contar da data do Decreto. Nas demais áreas, as queimadas serão proibidas em quinze anos. A medida vem sendo criticada pelas entidades de classe que temem uma forte queda do rendimento do trabalho. Contudo, muitos discordam desse argumento, afirmando que o corte mecânico é 25% mais econômico. Na perspectiva da sustentabilidade, é óbvio que o corte mecanizado é preferível às queimadas, pois além de evitar a poluição atmosférica, a colheita mecânica tem como sub-produto a palha picada, que pode ser usada como cobertura morta do solo. Mas permanece um seríssimo problema socioeconômico de curto prazo, pois cada colheitadeira pode dispensar o trabalho de 80 homens/dia.

 

desafios e perspectivas

 

            Os grandes obstáculos que se opõem ao desenvolvimento brasileiro, decorrentes, em geral, de deficiências e vícios que se acumularam no curso de nossa história, agravando-se, intoleravelmente, em anos recentes - como a crise social e a deterioração do aparelho de Estado - estão a requerer um amplo consenso nacional quanto à absoluta e urgente necessidade de sua superação.

            Tudo indica que o objetivo estratégico deve ser a obtenção sustentável de segurança alimentar. Objetivo que não será alcançado se os seguintes desafios não forem enfrentados concomitantemente: a definição de uma estratégia para o desenvolvimento sustentável, a revalorização socioeconômica e cultural do espaço e da família rural, bem como o desenvolvimento e a utilização de métodos participativos.

 

Segurança alimentar

 

            Não há país desenvolvido que não tenha colocado a segurança alimentar de sua população na linha de frente de seu interesse nacional. E esta é a razão porque chegaram à condição de bem-estar, qualidade de vida e progresso material em que se encontram.

            A elevação do salário real, que levou a uma acentuada diminuição das desigualdades na distribuição da renda e à estabilidade reinante nos últimos quarenta anos, só foi possível devido ao substancial aumento da oferta de alimentos. Isto permitiu que os preços dos alimentos subissem menos que os demais preços ao consumidor. Quando se compara as alterações nas diferenças de renda com a evolução do custo de vida de cada estrato socioeconômico, percebe-se o papel estratégico que os preços alimentares podem ter na redução das desigualdades e na geração do poder de compra necessário ao aprofundamento e à ampliação dos mercados.

            No Brasil, a tentativa de prolongar as condições reinantes da década de 1970, fez com que o empresariado se acomodasse com o consumo da classe média, o que acabou estrangulando os mercados. No entanto, não haverá retomada do desenvolvimento sem aproveitamento do potencial do chamado mercado de baixa-renda, formado pelos 80% da população ativa que ganha menos de três salários mínimos.

            Metade desse contingente está na região Sudeste e um quinto concentrado em apenas duas regiões metropolitanas: a paulista e a carioca. A capacidade de resposta desta parcela do mercado é enorme e rápida, pois a demanda reprimida é muito grande. No entanto, esses consumidores continuam forçados a gastar quase a metade do que ganham só para comer (e muito mal, diga-se de passagem).

            O potencial desse mercado de baixa renda, formado pela grande maioria da população, só será liberado por um dramático aumento da produtividade do agribusiness. Isto exige essencialmente muita pesquisa, muita educação, e muita assistência técnica, particularmente nas regiões mais críticas, isto é, todas salvo o Sudeste. O que só será alcançado com uma profunda mudança do padrão das políticas públicas e governamentais.

            É possível, em período de tempo relativamente breve, alcançar o objetivo da autosuficiência produtiva nos 12 produtos da cesta básica, que atendem entre 80% e 90% das necessidades calóricas e protéicas das famílias trabalhadoras, deixando o aumento da disponibilidade dos restantes como segunda prioridade.

            Ao mesmo tempo, a possibilidade de alcançar tal objetivo de autosuficiência está cada vez mais ameaçada por práticas produtivas, distributivas e consumistas que degradam os recursos naturais, poluem o meio ambiente e contaminam os alimentos. A própria competitividade do agribusiness dificilmente será mantida se não forem superados os problemas de devastação, erosão, mal uso de praguicidas, perda da biodiversidade, poluição agroindustrial, contaminação etc. Parte desses problemas está intimamente associada com a pobreza e com uma estrutura agrária dual e desigual, enquanto outros refletem estratégias produtivas resultantes de estímulos econômicos de curto prazo, que não levam em conta a necessidade de proteger o patrimônio natural e assegurar o bem-estar das futuras gerações.

            O desafio da produção alimentar sustentável é, portanto, combater a pobreza sem esquecer a responsabilidade ambiental. Combater o atraso, incentivando simultaneamente o manejo equilibrado dos recursos naturais. E é óbvio que nada de parecido será factível se as políticas macroeconômica e comercial não incorporarem objetivos e critérios de sustentabilidade.

 

Desenvolvimento sustentável - a difícil busca de uma estratégia

 

            A idéia de uma ‘agricultura sustentável’ revela, antes de tudo, uma  insatisfação com o status quo da agricultura moderna. Insatisfação que surge em meados dos anos 1970, de uma crescente preocupação com a salubridade alimentar e com os impactos ambientais decorrentes dos sistemas produtivos.

            Foi nesse contexto que se multiplicaram os entusiastas dos métodos ‘orgânico’, ‘biodinâmico’, ‘biológico’ e ‘natural’ de produção alimentar. Quando começaram a ganhar certa visibilidade, foram alvo de insidiosa campanha de descrédito, lançada por uma coalizão de interesses do ‘agronegócio’ e do sistema de pesquisa agropecuária (mesmo que em ambientes um pouco mais arejados, como o acadêmico, os ‘alternativos’ tenham sido considerados apenas ‘folclóricos’).

            A partir de meados dos anos 1980, tornou-se impossível simplesmente desqualificar as preocupações com a saúde e com os recursos naturais e, agora, essa mesma coalizão começa a admitir, com certo embaraço, que a agricultura precisa mesmo ser sustentável, apesar do establishment (agroburocracia e agronegócio) manter seu fundamental menosprezo pelos ambientalistas.

            O consenso em torno da necessária sustentabilidade não deve, no entanto, escamotear as dificuldades de aplicação prática dessa definição e os problemas de sua vinculação à idéia de “desenvolvimento”. Questão que deve ser vista como novo desafio teórico e não como expediente que possa diluir seu valor heurístico e seu profundo sentido ético.

            Todavia, quanto mais freqüente se torna o uso da expressão ‘desenvolvimento sustentável’, mais nítida vai se tornando a contradição entre esse crescente consenso retórico e a insipiência do pensamento estratégico correspondente: seja na escolha de objetivos, seja, sobretudo, na definição dos meios para atingi-los.

            Uma das mais flagrantes manifestações desse contraste pode ser identificada no processo de elaboração da Agenda 21. Abordagens analíticas abrangentes e profundas terminam em listas de sugestões em geral bem pertinentes, mas que estão muito longe de constituir “estratégias”, “estratégias prioritárias”, ou “ações estratégicas”, como pretendem, por exemplo, os subsídios preparados para a Agenda 21 Brasileira[2].

            E mesmo que tais sugestões fossem muito bem integradas e sistematizadas, não chegariam a fornecer algo que pudesse sequer parecer ao conjunto de operações necessárias para se conceber, preparar e conduzir a ação coletiva que poderá promover o desenvolvimento sustentável da sociedade brasileira.

            Parece razoável partir do pressuposto de que essa falta de formulação estratégica resulta de uma dificuldade objetiva, e não de uma fortuita deficiência intelectual dos diferentes atores sociais que já estão mobilizados para responder ao desafio. E essa dificuldade objetiva é gigantesca.

            Para conquistar mais sustentabilidade (já que o processo de desenvolvimento jamais poderá atingi-la em termos absolutos) é preciso definir o conjunto de operações necessárias a uma completa reorientação do processo de crescimento econômico. Enquanto esse for o principal alicerce do desenvolvimento, a sua sustentabilidade dependerá antes de tudo de uma mudança radical de sua estrutura institucional de incitações. Contudo, qualquer arranjo institucional é prisioneiro do caminho que foi antes, pois toda trajetória prévia tende a ser consolidada pelo processo de aprendizado das organizações, pela modelização subjetiva das questões, por externalidades de rede etc. Ou seja, a economia tende a engendrar políticas que reforçam as incitações e as organizações existentes.

            Só poderia ser quixotesca, portanto, a idéia de uma brusca virada na estrutura institucional de incitações. Uma situação que se torna ainda mais grave num momento histórico em que a luta contra o desemprego tende a impor uma busca desenfreada - e sem escrúpulos - de qualquer fórmula que possa favorecer o crescimento das economias nacionais.

            Em tais circunstâncias, a mudança de rumo ditada por preocupações ambientais só se legitimará se puder simultaneamente impulsionar o empreendedorismo, isto é, se a precaução ecológica puder alavancar o crescimento, em vez de restringi-lo.

            O desafio está, portanto, em conciliar sistemas produtivos que, simultaneamente, conservem os recursos naturais e forneçam produtos mais saudáveis, sem comprometer os níveis tecnológicos já alcançados de segurança alimentar.

 

Revalorização do espaço e da família rural

 

            A separação artificial - e nem sempre nítida - para fins de política e organização institucional dos componentes econômicos e sociais do âmbito rural, com base em critérios setoriais e estruturais, não permitiu que se valorizasse adequadamente o potencial de crescimento da economia rural em seu conjunto, que é muito maior que o potencial de aumento da produção agrícola considerada isoladamente.

            O fortalecimento dos nexos e das interdependências econômicas e sociais da economia rural com a economia urbano-industrial gerariam importantes efeitos multiplicadores que favoreceriam um desenvolvimento mais sustentável e eqüitativo.

            Revalorizar o espaço rural significa oferecer às populações rurais a possibilidade de intervenção efetiva na definição das políticas macroeconômicas e na alocação dos recursos públicos. Significa, ao mesmo tempo, promover a revisão do lugar ocupado pelo campo no imaginário das populações urbanas, a começar pelos tomadores de decisões.

            Também artificial é a visão convergente, entre direita e esquerda, que associa a agricultura familiar ao atraso, isto é, um resíduo, um setor em extinção, sem relevância para o progresso econômico e social. Criou-se o mito de que o avanço, a retomada do crescimento econômico, a transformação tecnológica, a alta produtividade só podem advir de enormes fazendas, necessariamente de caráter patronal. No entanto, em todos os países de sucesso a unidade familiar mostrou-se historicamente mais apta a incorporar progresso técnico e produzir a baixos custos.

            A promoção da agricultura familiar não é exclusivamente um objetivo de caráter social, mas sim um elemento estratégico de um novo modelo de desenvolvimento econômico para o Brasil. Uma perspectiva baseada em milhões de famílias - já estabelecidas ou que vierem a ser assentadas - pode se mostrar, não só mais viável, para a eliminação da miséria no campo, do que o trickle down effect da prosperidade das grandes corporações, como também mais eficiente, em termos de custos-benefícios, do que programas enfocados exclusivamente pelo lado do gasto público, como são os programas ditos "sociais".

            Desafogar minifundistas, oferecendo-lhes a oportunidade de se tornarem agricultores familiares viáveis; transformar arrendatários em proprietários; e oferecer terras a seus filhos são pontos prioritários da perspectiva de mais sustentabilidade.

 

Métodos participativos

 

            Ultimamente, organismos internacionais, como o BIRD e o BID não se cansam de advertir que as ações de desenvolvimento que utilizam métodos participativos têm resultados muito superiores aos que se baseiam em estruturas hierárquicas.

            De fato, a experiência indica que o envolvimento das comunidades permite estabelecer, com muito maior precisão, quais são as necessidades prioritárias, criando um fluxo de informação útil que pode ser crucial para a gestão, promovendo a contribuição de idéias inovadoras por parte da comunidade, possibilitando uma avaliação contínua do andamento do programa, e constituindo ainda um preventivo quase insuperável diante da possibilidade de corrupção.

            No entanto, também é verdade que os processos realmente participativos caracterizam-se por uma altíssima “volatilidade”. Qualquer programa de desenvolvimento rural será dirigido a um vasto grupo social, produzindo dinâmicas de alta complexidade. Nele intervirão diferentes ministérios, governos estaduais, prefeituras, ONGs, grupos da sociedade civil, com inter-relações variáveis. As comunidades poderão reagir de modos muito diversos e sua reação poderá mudar durante a execução. Na própria implementação do programa serão descobertas oportunidades e riscos impossíveis de serem previstos durante a concepção de políticas e projetos, e, com freqüência, surgem também decisões externas.

            Enfim, a execução de qualquer programa participativo tende a apresentar características “turbulentas”. Seria ilusório imaginar, entretanto, que esse novo estilo gerencial possa surgir sem que os próprios agricultores pressionem as autoridades nessa direção. Por isso, a promoção de um desenvolvimento agropecuário sustentável exige, antes de tudo, o protagonismo dos próprios agricultores, o que não é fácil de se conseguir, mesmo em circunstâncias favoráveis, opostas às que predominam, por exemplo, no agrossistema constituído pelo Nordeste seco.

 

CONCLUSÕES

 

            Para discutir as mais prováveis tendências, bem como possíveis saídas para o imenso impasse social a que chegou o Brasil, o ponto de partida deve ser o reconhecimento de que o panorama apresentado nos itens anteriores é apenas uma de suas facetas.

            Os padrões de desenvolvimento, de articulação de interesses e de intervenção estatal inaugurados na década de 1930 esgotaram-se, sem que tenham surgido projetos estruturantes que consigam o apoio efetivo dos grandes interesses econômicos e políticos. Trata-se de uma situação cujas saídas são difíceis de prever. Existem esperanças de que seja possível avançar no caminho da negociação sem ruptura, mas ainda não surgiram novas alianças políticas democráticas capazes de produzir, em simultâneo, estabilização, retomada do crescimento e ataque frontal à pobreza crítica.

            Na agricultura, o mais provável é que a legitimação de propostas ‘alternativas’ venha a se dar paralelamente a um oscilante declínio do padrão atual de desenvolvimento. Esse processo de transição dependerá em grande parte de articulações de âmbito local que possam resultar em sinergias entre os agentes sociais mais dinâmicos. Caso contrário, não haverá alteração do status quo, por melhores que sejam as longas listas de objetivos, linhas de ação, propostas de política etc.

            Não haverá perspectiva sustentável para a agropecuária sem uma dinamização endógena que caminhe nessa direção. Ou seja, tudo vai depender do surgimento de pactos territoriais orientados para a promoção da agricultura sustentável. A base desses pactos é a criação ou o fortalecimento de mecanismos participativos de planejamento e de gestão ambiental, tendo como unidade territorial preferencial as bacias hidrográficas.

            Esta proposta parte do princípio de que o anseio de uma agricultura sustentável jamais será atingido por meio de ações isoladas, deste ou daquele setor. As soluções para os problemas que caracterizam a agropecuária brasileira desde a década de 1960 passam por um amplo processo de negociação entre governo, setor privado e organizações civis, inclusive organizações de consumidores. Não se trata, obviamente, de se forjar convergências entre esses setores, mas sim, de se articular esforços em áreas de interesse comum – saúde, educação, conservação ambiental – e de se estabelecer compromissos coletivos. É isso o que se entende por pacto.

            Na região da Mata Atlântica e das Florestas e Campos Meridionais, por exemplo, esta proposta não parte da “estaca zero”. Ao contrário, a crescente institucionalização dos mecanismos de participação da sociedade nas discussões e na execução de políticas públicas – desde a Constituição de 1988 – resultou em um amplo conjunto de experiências bem sucedidas. Durante os anos 1990, a região Sul assistiu à proliferação de comitês de gestão de microbacias hidrográficas em torno dos quais centenas de milhares de agricultores se organizaram, orientando suas condutas em direção a valores bem diferentes daqueles que, na década de 1960, presidiram a transformação da base técnica de suas unidades produtivas. Estas mudanças já permitiram atenuar de maneira significativa os principais problemas ambientais da região: a erosão dos solos e o escorrimento nos rios dos dejetos suínos.

            A proposta, portanto, é investir no fortalecimento e na multiplicação de experiências como essas. Obviamente, a participação ativa dos agricultores nas etapas de diagnóstico, de planejamento, de execução e de avaliação são ingredientes imprescindíveis. Todavia, a adesão dos agricultores em iniciativas desse tipo não se dará por acaso, principalmente nas regiões onde predomina a miséria. Depende, em grande parte, de avanços nas condições de vida do amplo contingente de agricultores familiares em todo o país.

            Mas, a participação ativa dos agricultores não é, certamente, o único ingrediente necessário ao desenvolvimento de pactos territoriais voltados à sustentabilidade. Nesses processos é fundamental a geração de novos conhecimentos e de novas tecnologias que contribuam para a sustentabilidade da agricultura. Isso implica em revisar as agendas das instituições estatais de pesquisa agropecuária, procurando incluir novos temas que vão desde o manejo sustentável dos sistemas produtivos até o planejamento ambiental, baseado em zoneamentos agroecológicos.

            É certo que a pesquisa não deverá se ocupar da formulação de um “pacote” bem definido de tecnologias “limpas”, pois não é disso que depende a agricultura sustentável. Mas, também, é cada vez mais certo que a diversificação dos sistemas produtivos deverá estar na mira de qualquer instituição de pesquisa que pretenda estar em dia com as demandas do novo padrão. É sabido que a resiliência dos ecossistemas depende da presença de um grande número de espécies. Por isso é fundamental que se promova a substituição progressiva dos sistemas agrícolas muito simplificados, como as monoculturas, por sistemas diversificados, sobretudo os sistemas rotacionais, que integrem a produção animal e vegetal.

            Os sistemas mais diversificados, que certamente estarão na base de um padrão mais sustentável, serão muito exigentes não só em conhecimento ecológico, como também em saberes que combinem o conhecimento agronômico clássico ou convencional, com o conhecimento agroecológico, isto é, que proponham uma abordagem mais holística do agroecossistema. Trata-se, assim, de uma proposta bem mais complexa do ponto de vista metodológico, que demandará disponibilidade e aptidão para se transpor os limites do saber específico e assumir perspectivas interdisciplinares.

            Finalmente, tão importante quanto gerar novos conhecimentos e novas tecnologias é fazê-los chegar ao seu destino final. Seja pelos caminhos tradicionais, como o ensino universitário ou os órgãos de extensão rural - que deverão encurtar a distância entre produtores e pesquisadores. Seja por meios não convencionais: como os veículos de comunicação ou as organizações não-governamentais.

 

 

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[1]   Ver o subsídio à Agenda 21 preparado pelo consórcio GOELDI/USP/ATTECH (MMA, 1999).

[2]    O processo de elaboração da Agenda 21 Brasileira vem sendo conduzido desde 1997 pela Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável.